Psicóloga Renta de Oliveira desmonta mitos sobre felicidade e apresenta caminhos reais para viver com mais equilíbrio
CARATINGA- Em um mundo acelerado, cheio de cobranças e hiperconectado, falar sobre saúde mental se tornou essencial. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, bem-estar não significa ignorar as dificuldades — ele envolve compreender emoções, cultivar virtudes e fortalecer o que temos de melhor. É essa a proposta da Psicologia Positiva, área científica que estuda a felicidade, o florescimento humano e os fatores que contribuem para uma vida com sentido. Para entender como esses princípios podem transformar o cotidiano, o DIÁRIO conversou com a psicóloga Renata de Oliveira Miranda Sá, que explica de forma acessível o que a ciência já descobriu sobre viver melhor.
Para começar, o que é Psicologia Positiva e como ela se diferencia da Psicologia tradicional?
A Psicologia Positiva, é o enfoque científico e aplicado da descoberta das qualidades e virtudes das pessoas, bem como para o auxílio no sentido de que as pessoas tenham vidas mais felizes e mais produtivas. Ela se difere da psicologia tradicional, pelo fato de olhar o ser humano para além de seu sofrimento, dor, traumas, desadaptabilidades, oferecendo um equilíbrio entre a qualidade das pessoas junto com seus defeitos e assim poder cultivar o que o ser humano tem de melhor.
Quando falamos em “ciência do bem-estar”, do que exatamente estamos falando?
Falamos de estudar a percepção subjetiva da visão do indivíduo no mundo, suas experiências de prazer e sua apreciação das recompensas da vida. É buscar o envolvimento das virtudes e qualidades humanas, para que a vida esteja alinhada a um propósito e sentido mais autêntico para a pessoa e sua relação com mundo.
Existe fórmula para a felicidade? O que a ciência já sabe sobre isso?
Se entendermos fórmula, como um conjunto de ideias e regras, podemos dizer que SIM! Segundo Myers, para uma vida feliz você pode: 1. Assumir o controle de seu tempo. 2. Entender que a felicidade duradoura não vem do sucesso. 3. Agir de maneira feliz (sorriso, gentileza, otimismo) 4. Procurar atividades de trabalho e lazer que exijam o emprego de suas habilidades (estado de flow) 5. Entrar para o movimento “do movimento” (prática de atividade física). 6. Dar o seu corpo o sono que ele precisa. 7. Dar prioridade a relacionamentos íntimos e saudáveis. 8. Ter foco para além de você mesmo. 9. Manter um diário de gratidão. 10. Alimentar seu eu espiritual.
Felicidade e bem-estar são a mesma coisa? Se não, qual a diferença?
Para alguns estudiosos sim, para outros não. Dentro da perspectiva de Aristóteles, o bem-estar seria a felicidade mais o significado e deve ser entendida a virtude e as implicações do comportamento diário. Ou seja, devemos viver para além das coisas prazerosas e sim cobrir a prosperidade como objetivos e necessidades reais. Trazer isso, é aumentar o sentido da sua ação.
Como lidar com emoções difíceis dentro da perspectiva da Psicologia Positiva?
As emoções são parte da nossa experiência humana e vão estar diretamente ligadas a situações experienciadas externamente (eventos) ou internamente (pensamentos). Sabemos que as emoções difíceis são desagradáveis de sentir, pois geram desconforto geral. A psicologia positiva, sugere que diante disso, haja uma expansão das experiências positivas para aumentar o repertório de emoções positivas (vivenciar situações que promovam alegria, prazer, contentamento, amor, etc.) o que provavelmente melhoraria a flexibilidade de pensamento, raciocínio e tomada de decisão e assim melhorar a capacidade de resolução de problemas (autoeficácia).
É possível aprender a ser mais otimista mesmo sem “nascer assim”?
Segundo Martin Seligman, SIM! Chamamos de Otimismo Aprendido, que seria a capacidade cognitiva de voltar a atenção aos objetivos/motivação e assim distanciar o “olhar” para os resultados negativos. No fator ambiental, por exemplo, os pais que proporcionam ambientes seguros e coerentes têm mais probabilidade de promover o estilo otimista em seus filhos. E segundo as pesquisas, a redução do pensamento pessimista e aumento do otimismo, melhora o funcionamento cerebral e os marcadores neurobiológicos, além de melhorar as estratégias de enfrentamento voltadas à aproximação (parar de evitar ou procrastinar), de recuar positivamente (não fazer se houver risco) e ver o melhor nas situações para aceitá-las dentro da realidade.
Quais práticas simples e cientificamente validadas qualquer pessoa pode incluir na rotina para aumentar o bem-estar?
Existe cinco componentes cientificamente descritos que são: 1. Emoções Positivas (experiementar emoções positivas como orgulho, serenidade confiança, gratidão) 2. Engajamento (estar em atividades que utilizem suas próprias forças) 3. Relações positivas e confiáveis 4. Significado (pertencer e servir a alguma coisa com senso de propósito) 5. Realização (buscar sucesso, competência e realização). Vou deixar algumas dicas de atividades que podem ser incluídas no dia a dia para melhor a seu bem-estar como: Ter um diário de gratidão, higiene do sono, fazer uma atividade prazerosa semanal. Caminhada consciente e atos de gentileza.
Como a Psicologia Positiva olha para o papel da empatia, compaixão e conexão social?
Podemos pensar que esses processos citados, cumprem papéis fundamentais em ajudar grupos de pessoas a viver juntos com maior estabilidade e concordância social. A empatia é uma resposta emocional à dificuldade emocional percebida de outra pessoa e a compaixão é a capacidade de reconhecer o sofrimento – próprio ou alheio. A psicologia positiva, ao explorar o desenvolvimento destes processos, visa promover o aprendizado do bem-estar em ajudar os outros, aumentar o senso de responsabilidade social e altruísmo.
Como a vida moderna interfere no bem-estar?
Quando olhamos para os costumes que são estimulados atualmente, sobre “a vida moderna”, eles vêm marcados por: ritmo acelerado, tecnologia e hiperconectividade, mudanças constantes, individualização, consumo e performance, espaços reduzidos e urbanização o que consequentemente vemos em um aumento na ansiedade e estresse crônico, sensação de desconexão, dificuldade de presença e descanso, expectativas irreais sobre “dar conta de tudo”, aumento do uso de tela, etc. Diante do que foi citado, o bem estar fica comprometido e cresce o afastamento no âmbito do trabalho, problemas persistentes sociais, vulnerabilidade ambiental e psicológica, portanto temos fatores de risco mais propício ao adoecimento mental.
O trabalho pode ser uma fonte de realização ou sofrimento. Como aplicar a Psicologia Positiva no ambiente profissional?
As empresas já estão atentas sobre a melhoria na qualidade profissional oferecida aos colaboradores e isso já pode ser considerado um avanço na promoção da saúde mental dentro das organizações. A psicologia positiva, traz o conceito de Emprego Gratificante, que se caracteriza por: variedade de tarefas realizadas, ambiente de trabalho seguro, renda para a família e para a própria pessoa, propósito derivado do fato de fornecer um produto ou prestar um serviço, felicidade e satisfação, engajamento e envolvimento positivos, sensação de estar desempenhando bem e atingindo objetivos, companheirismo e lealdade de colegas de trabalho, chefes e empresa.
Quais os maiores mitos sobre felicidade?
Um dos maiores mitos é associar a felicidade à ausência de tristeza ou sofrimento. Isso é um erro. Primeiramente, porque sofrimento é parte da vida, dos aspectos negativos da vida e todos nós, seres humanos, vamos passar por algum nível de sofrimento, em algum momento da vida. Outro mito seria associar a felicidade a uma conquista, do tipo: “ Só vou ser feliz, quando tiver comprado minha casa”, isso também é uma associação disfuncional, pois já sabemos que a alegria, como qualquer emoção é temporária e depois de um tempo voltamos ao “estado de equilíbrio”.
Qual conselho você deixa baseado na ciência para quem deseja viver melhor?
Eu deixo mais que um conselho, eu deixo perguntas: “O que faz a vida valer a pena para você?”, “Quais condições internas e externas favorecem o seu florescimento humano”, “Quais são seus valores e virtudes”, “As suas relações mais próximas são seguras e verdadeiras”, “Como você tem se cuidado atualmente?”, “O que faz para você e para o outro que te dê prazer/satisfação?”. Queria deixar essas perguntas para que você possa pensar, escrever, refletir e buscar estratégias para mudar sua vida, naquilo que for preciso e necessário para viver uma vida que vale a pena ser vivida!










